Pesquisadoras do Rio Grande do Sul monitoraram mulheres que trabalhavam perto de janelas e outras que passavam o dia em espaços só com luz artificial. O resultado do estudo mostra que a luminosidade no ambiente de trabalho interfere diretamente no metabolismo da pessoa.

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Como é a iluminação no seu ambiente de trabalho? Luz natural é vital à existência humana e a ausência dela na sua rotina pode aumentar as chances de problemas sérios de saúde. É o que sugere uma pesquisa liderada por três brasileiras: Betina Martau, professora adjunta do Departamento de Arquitetura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS); Maria Paz Hidalgo, professora do Departamento de Psiquiatria e Medicina Legal da Faculdade de Medicina UFRGS; e Francine Harb, acadêmica da faculdade de Medicina da UFRGS.

Desenvolvido ao longo de cinco anos e publicado no jornal científico Chronobiology International em novembro este ano, o estudo avaliou 20 mulheres, entre 18 e 60 anos, durante o expediente diurno de uma semana em um grande hospital. Metade delas trabalhou perto de janelas, enquanto a outra metade passou o tempo em espaços iluminados somente por luz artificial. Ao longo dos sete dias, todas as participantes estiveram equipadas com uma espécie de relógio, que monitora a quantidade de luz recebida e o ritmo do corpo em atividade e repouso. Suas taxas de melatonina e cortisol – hormônios que controlam os ciclos diários do organismo, como acordar e dormir – foram testadas, assim como a qualidade de sono, estabilidade psicológica e temperatura corporal.

Com o fim do acompanhamento, as pesquisadoras constataram que o grupo sem contato à luz natural mostrou níveis mais altos do hormônio cortisol e menor liberação do hormônio melatonina à noite – ou seja, trabalhar em um lugar sem janelas alterou o metabolismo das voluntárias. Essa mudança foi relacionada à possibilidade de distúrbios psiquiátricos, sintomas depressivos e piora na qualidade do sono.

Betina Martau e Maria Paz Hidalgo conversaram com ÉPOCA sobre as conclusões do estudo:

ÉPOCA – Por que o ser humano precisa da luz diurna?

Maria Paz – Uma série de processos fisiológicos e comportamentais ocorre em praticamente todas as plantas e animais. No caso dos seres humanos, esses processos são sustentados pelo sistema circadiano: o “relógio biológico” que direciona nosso organismo com base em fatores como variação entre luz e escuridão. Ele regula o funcionamento do organismo e é responsável pela adaptação do ser humano aos estímulos do meio em que vive.

Após a descoberta da eletricidade, deixamos de planejar nossas rotinas de acordo com as transições do dia para a noite. A possibilidade de escolher quando o dia começa e termina fez com que a população aumentasse a fase clara expondo-se à luz artificial quando está escuro. Isso levou a espaços urbanos mais desprendidos de marcas visuais da passagem das horas: existe hoje um número considerável de profissionais que passa a maior parte do seu expediente em ambientes fechados, com pouca exposição à luz solar e sem contato visual com o exterior. O organismo de quem vive assim fica “dessincronizado” com o meio ambiente, alterando o metabolismo, o funcionamento imunológico e aumentando as chances de obesidade, depressão e transtornos do sono.

ÉPOCA – Uma longa exposição à luz artificial pode ser prejudicial ao ser humano? E se combinada a uma baixa exposição ao sol?

Betina Martau – É importante não confundir sol com luz. Para realizarmos processos metabólicos, necessitamos de um mínimo de tempo diário em contato com iluminação natural intensa. O nosso corpo produz hormônios dependendo se estamos no claro ou no escuro. Por exemplo: produzimos cortisol pela manhã para que estejamos preparados para as atividades por vir. Mas no escuro liberamos melatonina, hormônio responsável pelo controle do ritmo do organismo. Ou seja, ficar sob pouca luz durante o dia e por muito tempo à noite é, sim, prejudicial para o bem-estar e para a saúde.

Maria Paz – O problema da proximidade frequente à luz artificial é que a variação entre claro e escuro diminui. Quando usada durante a noite, a luz artificial confunde o organismo, que não entende que está na hora de se preparar para dormir. Os níveis de melatonina, produzido somente quando a pessoa está no escuro, acabam diminuindo ou sendo suprimidos.

ÉPOCA - Quanto tempo de exposição à luz solar por dia é suficiente para não prejudicar a saúde da pessoa?

Betina Martau – Isso vai depender da intensidade da luz e da localização geográfica do ser humano. Em uma situação ideal, deveríamos não estar mais expostos à iluminação quando o Sol se põe e voltar a despertar próximo ao horário do amanhecer. É por isso que populações rurais ainda são potencialmente mais saudáveis que as urbanas, no que diz respeito à sua relação com a luz.

Maria Paz - Relembremos que estamos expostos à luz artificial há menos de 150 anos. Em cidades como Nova Iorque, onde a iluminação sempre foi considerada sinônimo de evolução e riqueza, as pessoas estão em ambientes fechados com iluminação constante e é raro encontrar escuridão intensa.

ÉPOCA – Qual era o objetivo da pesquisa conduzida por vocês?

Betina Martau – Queríamos avaliar os efeitos que o contato de um indivíduo com a iluminação natural durante o período de trabalho diurno tem sobre o seu ritmo de atividade, qualidade de sono, seus níveis de hormônios melatonina e cortisol e as chances de desenvolver distúrbios em algumas variáveis psicológicas. Focamos na relação entre iluminação, ritmos circadianos e variáveis psicológicas em trabalhadoras de um grande hospital.

Maria Paz – A ausência de janelas no ambiente de trabalho manteve as voluntárias sob uma claridade quase constante, sem a variação de intensidade que faz o organismo perceber a alteração entre os momentos escuros e claros de um mesmo dia e que nos dá uma marcação temporal. Vimos que isso está associado a mudanças nos níveis de secreção de cortisol e melatonina, as quais implicam em chances de ter sintomas depressivos e pior qualidade de sono.

ÉPOCA – Por que o grupo focal foi formado somente por mulheres entre 18 e 60 anos?

Betina Martau – Como não sabemos se homens e mulheres têm comportamentos diferentes em relação às variáveis pesquisadas, criamos um grupo formado apenas por mulheres. Assim, evitaríamos diferenças por questões de gênero. Sabíamos que o sexo feminino tem maior propensão a sintomas depressivos e esse fator nos interessava cientificamente. Desejávamos somente pessoas maiores de idade e na fase adulta, pois crianças e idosos também poderiam ter respostas diferentes aos fatores estudados. Todas as voluntárias do estudo trabalhavam no turno diurno, entre oito horas da manhã e seis da tarde, e estavam há no mínimo um ano como empregadas do hospital. Esse é o período mínimo apontado pela bibliografia médica para analisar com clareza o impacto que aspectos ambientais têm sobre o ser humano. Todas também eram saudáveis e não ingeriam medicamentos proibidos para a realização do estudo.

ÉPOCA – Qual é a contribuição do trabalho de vocês ao que já se sabia sobre a importância da luz no dia a dia?

Betina Martau – Era sabido que a iluminação influenciava o ritmo biológico humano, mas era difícil quantificar essa influência. Além disso, como a luz varia dependendo da situação geográfica, pesquisas realizadas em países do hemisfério norte, por exemplo, podem ter resultados diferentes das feitas na América Latina. Por isso é importante liderar estudos locais. O mérito da nossa pesquisa foi estabelecer uma metodologia que oferece as respostas necessárias a uma realidade brasileira.

Maria Paz – Para a área da saúde, fica o alerta que uma das formas de prevenir transtorno de humor e de sono é a exposição de luz natural no ambiente de trabalho.

ÉPOCA – E ao mercado de trabalho?

Betina Martau - A área da Arquitetura que trata do papel da iluminação em um espaço ainda é pequena e pode expandir. A importância do contato com luz natural de dia e a redução da claridade à noite precisa ser difundida. Um exemplo negativo é o de um consultório médico, onde a secretária e a sala de espera geralmente ficam sem contato com o exterior. O mesmo vale para espaços subterrâneos. Ao longo dos anos isso pode ser danoso.

A legislação, porém, é falha. Os códigos de obras costumam obrigar edifícios a terem janelas em todos os ambientes de uso contínuo, mas o resultado acaba sendo espaços sem contato com o exterior. Os arquitetos devem compreender a responsabilidade que têm em relação às pessoas que irão ocupar aquela construção. Aperfeiçoar a formação desses profissionais é fundamental para ampliar a produção de espaços que priorizem aberturas para iluminação natural.

Esperamos que pesquisas como a nossa resultem em projetos arquitetônicos preocupados com a saúde dos funcionários e com o efeito negativo que a luminosidade excessiva pode ter sobre a fisiologia humana. A consciência da claridade como tão importante para o equilíbrio do corpo quanto a escuridão deve ser demonstrada em políticas públicas de redução à poluição luminosa presente nas grandes cidades. O mercado, pelo menos o brasileiro, ainda não absorveu os conhecimentos da área de pesquisa ao ponto de modificar suas práticas.

ÉPOCA – Quais são as características de um escritório perfeito em termos de luminosidade?

Betina Martau – Ele é inteiro iluminado naturalmente e com quantidade de luz suficiente para trabalhar com conforto visual. A possibilidade de contato com o exterior é benéfica emocionalmente, diminuindo estresse ao incluir elementos no campo da visão. Em espaços dotados só de iluminação artificial e sem contato visual com o exterior, é necessário que o controle da intensidade, espectro e cor da luz esteja acessível ao funcionário. Um cuidado maior precisa ser tomado durante os turnos noturnos, para evitar a supressão de melatonina em doses exageradas.

ÉPOCA – Existe algum aspecto que vocês ainda consideram discutível no resultado? Planejam continuar a pesquisa?

Maria Paz – Não pudemos estabelecer relações ao longo de um período de tempo extenso, maior que o da condução do estudo.

Betina Martau – As questões de gênero – ou seja, se homens seriam influenciados pela luz da mesma maneira que as mulheres – é uma das mais instigantes. Um acompanhamento mais longo de ambos os sexos poderá ser mais conclusivo. Os resultados também indicam que o ambiente luminoso do local de trabalho não deve ser estudado isoladamente, pois ele sozinho não explica as variações na fase circadiana. É necessário interpretar o contexto diário completo do indivíduo.

Quanto à continuidade, a pesquisa terá desdobramentos. Estou estudando sobre a falta de escuro na noite das grandes cidades e sua relação com os aspectos abordados na pesquisa anterior. Também iniciei um trabalho que explora o significado do claro e escuro para os habitantes de diferentes países e as diferenças culturais dessa percepção.

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